A nossa mídia, constantemente, deforma a
imagem da notícia. Algumas vezes isso é intencional e outras pelo
desconhecimento dos fatos. Geralmente, a mais usada é a primeira, a
fim de manter a massa alheia à exatidão dos acontecimentos.
O caso que vamos narrar caracteriza enaltecimento de marginais
como tendência dos donos da comunicação. Vamos lançar o caso, para
que sofra a devida reflexão por parte do leitor.
O “estardalhaço” promovido pela imprensa no que tange à ousadia
da “bandidagem”, a coragem, a destreza e o preparo dos malfeitores
fazem inveja a qualquer “guerreiro”, quer das Polícias Militares ou
das Forças Armadas, preparado para tal nos diversos centros de
treinamento operacional. A mídia chega até a fazer analogias
indiretas entre o “Zorro e o crime organizado” e, ainda entre a
“Polícia Militar e o Sargento Garcia”.
Nós afirmamos que esse tipo de retórica é um desserviço à
Sociedade, principalmente à juventude que devem estar bem
informadas. Aliás, nós alertamos, em 1994, quando o Exército teve
que ir para as ruas do Rio de Janeiro, a fim de conter a onda de
violência que pairava sobre a Sociedade Carioca.
Acusamos os meios de comunicação através de artigo, por
desmerecerem as Forças Armadas, antevendo, inclusive, o mau que o
profissional da mídia estava fazendo a sua própria classe, já que
também era parte da Sociedade, o que culminou com o assassínio
bárbaro e cruel do cidadão jornalista Tim Lopes.
Infelizmente, esse artigo nunca foi publicado na imprensa oficial
e, na época, não existiam os blogs, tão importante nos dias de hoje.
Mas a verdade é que nunca vimos tamanha covardia mesclada nas
ações do banditismo. O mais recente caso, dentre tantos não
enfatizados pela imprensa, é a prisão dos assassinos do menino João
Hélio Fernandes.
Diego Nascimento, o primeiro a ser preso, chegou à 30ª Delegacia
de Polícia todo “borrado”. É isso mesmo, o pavor era tanto que suas
necessidades fisiológicas não foram controladas pelo seu sistema
nervoso simpático. Já o outro bandido, Carlos Eduardo, o chefe de
quadrilha, que chamou a mãe de João de “vagabunda”, preferiu pedir
ajuda ao seu “papaizinho” para entregar-se aos policiais, numa praça
do bairro de Marechal Hermes.
Isso é para desmantelar a mítica de que “bandido não tem nada a
perder”. Além de ser uma mentira deslavada, sustentamos que bandido
tem medo, e muito, de morrer. Acabou a época dos criminosos que
preferiam morrer a se entregar. Lá se vão os “bons tempos” (para não
falar o contrário) dos “Tião mendonho”, dos “Cara-de-cavalo”, dos
“Cabeleira” e outros.
Vejam o que disse Elias Maluco, o algoz de Tim Lopes, diante da
sua iminente captura: “não esculacha”. Esquálido, parecendo um
ratinho indefeso, pedia clemência, através de seus olhos
esbugalhados, aos policiais que o prendiam. Ali, o assassino estava
diante da vida e da morte. Qualquer ação de descuido poderia estar
indo para o “inferno”.
Mas, ao comparecer diante da justiça, apresentava o ar de
altivez, pois, naquele local, estava seguro da intocabilidade, por
saber que sua vida não seria retirada, já que as câmeras de
televisão o focavam, e o juiz que iria decidir sobre sua sentença,
por representar uma classe, a dos magistrados, e, portanto, sempre
complacentes com malfeitores, sem dúvida não optaria por uma medida
drástica, como por exemplo, a pena capital a bandidos covardes e
desumanos.
Outra impropriedade, também alardeada pela mídia, é que a
marginalidade opera com destreza as armas que impunha, e, portanto,
promovem diversas baixas.
Esse é outro paramento deturpado do real. Temos sempre afirmado
que qualquer “policial barrigudo”, com o seu revólver 38, coloca
fora de combate, mortalmente, os jovens escudeiros do tráfico que se
atrevem a enfrentar os organismos de segurança, portando armamento
pesado, como AR-15. Dizemos isso, com tranqüilidade, porque sabemos
que, por bem ou por mal, o policial tem suas horas de treinamento,
enquanto a marginalidade, em não possuir munição sobrando ou local
para se adestrar, pratica tiro durante o confronto com a polícia.
Esses jovens, em não serem operacionais, não sabem manusear armas
sofisticadas. O resultado são granadas explodindo em suas mãos,
tiros não certeiros no exato momento de enfrentamento, nervosismo
que gera desordem nos movimentos das ações de combate. Isso tudo
implica no elevado índice estatístico de morte de adolescentes
despreparados para uma guerra, simplesmente porque estão engolfados
numa vida, cujo mísero rendimento do tóxico é a glória do sucesso,
além de serem estimulados pela propaganda desqualificada a respeito
da audácia dos criminosos nos enfrentamentos.
Diante dessa nefasta realidade, conclamamos que o discurso de que
o “crime não compensa” é a melhor maneira de se afastar o jovem
dessa onda de violência que paira nos grandes centros,
principalmente no Rio de Janeiro.
Aos jornalistas não muito preocupados com a ética da informação,
acalentamos que o mote “o crime não compensa” também vende jornais.
Dêem notícias menos tendenciosas e com sensacionalismo inteligente,
a fim de não influenciarem, psicologicamente, o jovem a se enveredar
pelo crime.
Hoje, profissionais da comunicação, vocês deixaram de ser
noticiadores da informação, para se transformarem em influenciadores
comportamentais das criaturas. Estrategicamente, têm peso no
processo decisório das políticas sociais e econômicas, para não
dizer na vontade psicossocial de uma nação em defesa de sua
soberania.
Para que vocês percebam o poder que têm nas mãos, reflitam,
portanto, sobre as palavras de Napoleão que dizia: “quatro jornais
podem fazer mais mal ao inimigo que um exército de cem mil homens”.
Antonio Celente
Videira é membro do Corpo Permanente da Escola Superior
de Guerra e Mestre em Administração pela UNESA.