Meu
Rei;
Esse lord que vos escreve - como em todas as
outras epístolas - vem de próprio punho narrar
somente o que esses meus tristes olhos captaram no
decorrer da última semana. Hoje, escreverei a
vossa Alteza somente sobre quatro pontos.
Senhor, quarta-feira - que foram 7 de
novembro - ao chegar no parlamento desse vosso
Condado do sudeste, tomei o sol do meio-dia e
enfrentei 40 graus a sombra. Meu coração foi
tomado por enorme tristeza, pesar e, sobretudo,
por uma gigantesca desilusão.
Camila precisa saber que, neste dia, duas
jovens vidas foram ceifadas pelo destino. A morte
baterá à porta de duas famílias dessa vossa
província do Belo Horizonte.
Érika, uma jovem súdita de pouco mais de 21
anos, com uma carreira promissora de psicóloga do
reino, fôra alveja por 13 disparos de arma de
fogo.
Seu algoz, um outro jovem no auge de seus 25
anos, matara por amor. Ou não! Ainda, não
se sabe os verdadeiros motivos.
O que sei meu Rei, é que inconformado com a
separação de 7 anos de amor, vosso jovem súdito
tirara a vida daquela que escolhera como sua outra
metade e a sua própria jogando-se no vazio e nos
braços da morte. Nesse momento que lhe escrevo meu
Rei, meus olhos se enchem d’água e sinto que meu
cálice transportou.
Em latim deixo aqui uma mensagem para que vossa
Alteza decifre: (*) Cuperem scire, de qua
causa, a quam plurimis adolescentibus ottium usque
adeo oestimetur, ut ipsi se nec verbis, nec
verberibus ad hoc sinant abduci.
Essa minha missão de lhe escrever de 7 em 7
luas faz-me respirar e concentrar-me para lhe
informar dos outros três acontecimentos.
Vosso Barão, Luiz Inácio Lula da Silva, também
na quarta-feira, aos 7 de novembro, estivera nesse
vosso condado do sudeste. Vosso Barão fôra
recebido pela Corte e cometera uma grande
descortesia com o parlamento provincial
(leia-se vereadores).
Camila, a dama de negro, horrorizará, ao
saber que o cerimonial baronesco não
convidara o parlamento provincial. Vosso
governador Aécio Neves, bem como, vosso presidente
da província Fernando Pimentel, tentaram contornar
a situação. Tarde demais.
De tudo o que fora dito, o barão Luiz Inácio
Lula da Silva se declarou Cruzeirense.
Vossa Alteza Real se assustará agora! Ontem,
que foram 11 de novembro, presenciei um total
desrespeito ao monarca real espanhol Juan Carlo.
Infelizmente é verdade, o barão venezuelano Hugo
Chaves tem pouquíssimo bom senso.
Deus que é bom comigo - um pecador -
deu-me um grande talento, estimulando-me a
sacrificar minha vida para o repouso do próximo.
Cada momento desperdiçado está perdido para todo o
sempre. Se eu nunca soube da preciosidade do tempo
na juventude, eu o sei hoje.
Agora, para convencer vosso povo do que está
acontecendo, decidi que algo extraordinário deve
ocorrer. Escreverei e apresentarei dois novos
espetáculos teatrais. O senhor pode imaginar o
tamanho de minha felicidade quando escrevo uma
nova peça teatral?
Só posso dizer-te sucintamente que todo o
inferno teatral dessa província ficará revolto e
pronto para evitar que o mundo testemunhe a
inteligência e o talento desse vosso lord.
Começarei, amanhã, os testes de elenco e os
ensaios de “Os Mistérios de Pandora” e
“Profecias de Amor”. Sei que poderei contar
com a presença de vossa Alteza e Camila quando a
estréia acontecer. Deus permitirá que nada
aconteça por acaso.
Eu imploro que me perdoe por tomar a liberdade
de lhe escrever essas poucas linhas, mas como
vossa Alteza disse em sua última carta, não há
nada que não possa entender em português. Quando
vossa majestade decifrar esta, seja bondoso e
mande-me uma resposta por um dos criados, pois meu
criado não pode esperar.
Deus Salve o Rei!
Beijo agora as vossas mãos;
Do criado de vossa Alteza e vosso leal
servidor.
Lord Vasco Romano do Ataíde
Marquês
do Abaeté
(*)"Gostaria de saber o motivo de o ócio ser
tão valorizado pelos jovens, que não o deixarão
com palavras ou golpes."