A Força Aérea Brasileira: vigilância orientadora, superioridade aérea, combate focado, combate aeroestratégico.
1. Quatro objetivos estratégicos orientam a missão da Força Aérea Brasileira e fixam
o lugar de seu trabalho dentro da Estratégia Nacional de Defesa. Esses objetivos
estão encadeados em determinada ordem: cada um condiciona a definição e a
execução dos objetivos subseqüentes.
a. A prioridade da vigilância aérea.
Exercer do ar a vigilância do espaço aéreo, sobre o território nacional e as águas
jurisdicionais brasileiras, com a assistência dos meios espaciais, terrestres e
marítimos, é a primeira das responsabilidades da Força Aérea e a condição essencial
para poder inibir o sobrevôo desimpedido do espaço aéreo nacional pelo inimigo.
A estratégia da Força Aérea será a de cercar o Brasil com sucessivas e
complementares camadas de visualização, condicionantes da prontidão para
responder. Implicação prática dessa tarefa é que a Força Aérea precisará contar
com plataformas e sistemas próprios para monitorar, e não apenas para combater e
transportar, particularmente na região amazônica.
O Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (SISDABRA), uma dessas camadas,
disporá de um complexo de monitoramento, incluindo veículos lançadores, satélites
geoestacionários e de monitoramento, aviões de inteligência e respectivos aparatos
de visualização e de comunicações, que estejam sob integral domínio nacional.
O Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA) será fortalecido como
núcleo da defesa aeroespacial, incumbido de liderar e de integrar todos os meios de
monitoramento aeroespacial do País. A indústria nacional de material de defesa será
orientada a dar a mais alta prioridade ao desenvolvimento das tecnologias
necessárias, inclusive aquelas que viabilizem independência do sistema de sinal GPS
ou de qualquer outro sistema de sinal estrangeiro. O potencial para contribuir com
tal independência tecnológica pesará na escolha das parcerias com outros países
em matéria de tecnologias de defesa.
b. O poder para assegurar superioridade aérea local.
Em qualquer hipótese de emprego, a Força Aérea terá a responsabilidade de
assegurar superioridade aérea local. Do cumprimento dessa responsabilidade
dependerá em grande parte a viabilidade das operações navais e das operações das
forças terrestres no interior do País. O requisito do potencial de garantir
superioridade aérea local será o primeiro passo para afirmar a superioridade aérea
sobre o território e as águas jurisdicionais brasileiras.
Impõe, como conseqüência, evitar qualquer hiato de desproteção aérea no período
de 2015 a 2025, durante o qual terão de ser substituídos a atual frota de aviões de
combate, os sistemas de armas e armamentos inteligentes embarcados, inclusive os
sistemas inerciais que permitam dirigir o fogo ao alvo com exatidão e “além do
alcance visual”.
c. A capacidade para levar o combate a pontos específicos do território
nacional, em conjunto com o Exército e a Marinha, constituindo uma única força
combatente, sob a disciplina do teatro de operações.
A primeira implicação é a necessidade de dispor de aviões de transporte em
número suficiente para transportar em poucas horas uma brigada da reserva
estratégica, do centro do País para qualquer ponto do território nacional.
As unidades de transporte aéreo ficarão baseadas no centro do País, próximo às
reservas estratégicas da Força Terrestre.
A segunda implicação é a necessidade de contar com sistemas de armas de
grande precisão, capazes de permitir a adequada discriminação de alvos em
situações nas quais forças nacionais poderão estar entremeadas ao inimigo.
A terceira implicação é a necessidade de dispor de suficientes e adequados meios
de transporte para apoiar a aplicação da estratégia da presença do Exército na
região Amazônica e no Centro-Oeste, sobretudo as atividades operacionais e
logísticas realizadas pelas unidades da Força Terrestre situadas na fronteira.
d. A índole pacífica do Brasil não elimina a necessidade de assegurar à Força
Aérea o domínio de um potencial estratégico que se organize em torno de
uma capacidade, não em torno de um inimigo.
Sem que a Força Aérea tenha o pleno domínio desse potencial aeroestratégico,
não estará ela em condições de defender o Brasil, nem mesmo dentro dos mais
estritos limites de uma guerra defensiva. Para tanto, precisa contar com todos os
meios relevantes: plataformas, sistemas de armas, subsídios cartográficos e
recursos de inteligência.
2. Na região amazônica, o atendimento a esses objetivos exigirá que a Força Aérea
disponha de unidades com recursos técnicos para assegurar a operacionalidade das
pistas de pouso e das instalações de proteção ao vôo nas situações de vigilância
e de combate.
3. O complexo tecnológico e científico sediado em São José dos Campos continuará a
ser o sustentáculo da Força Aérea e de seu futuro. De sua importância central
resultam os seguintes imperativos estratégicos:
a. Priorizar a formação, dentro e fora do Brasil, dos quadros técnico-científicos,
militares e civis, que permitam alcançar a independência tecnológica;
b. Desenvolver projetos tecnológicos que se distingam por sua fecundidade
tecnológica (aplicação análoga a outras áreas) e por seu significado
transformador (alteração revolucionária das condições de combate), não apenas
por sua aplicação imediata;
c. Estreitar os vínculos entre os Institutos de Pesquisa do Centro Tecnológico da
Aeronáutica (CTA) e as empresas privadas, resguardando sempre os interesses
do Estado quanto à proteção de patentes e à propriedade industrial;
d. Promover o desenvolvimento, em São José de Campos ou em outros lugares, de
adequadas condições de ensaio;
e. Enfrentar o problema da vulnerabilidade estratégica criada pela concentração de
iniciativas no complexo tecnológico e empresarial de São José dos Campos.
Preparar a progressiva desconcentração geográfica de algumas das partes mais
sensíveis do complexo.
4. Dentre todas as preocupações a enfrentar no desenvolvimento da Força Aérea,
a que inspira cuidados mais vivos e prementes é a maneira de substituir os atuais
aviões de combate no intervalo entre 2015 e 2025, uma vez esgotada a possibili-
dade de prolongar-lhes a vida por modernização de seus sistemas de armas, de sua
aviônica e de partes de sua estrutura e fuselagem.
O Brasil confronta, nesse particular, dilema corriqueiro em toda a parte: manter a
prioridade das capacitações futuras sobre os gastos atuais, sem tolerar desproteção
aérea. Precisa investir nas capacidades que lhe assegurem potencial de fabricação
independente de seus meios aéreos de defesa.
Não pode, porém, aceitar ficar desfalcado de um escudo aéreo enquanto reúne as
condições para ganhar tal independência. A solução a dar a esse problema é tão
importante, e exerce efeitos tão variados sobre a situação estratégica do País na
América do Sul e no mundo, que transcende uma mera discussão de equipamento e
merece ser entendida como parte integrante da Estratégia Nacional de Defesa.
O princípio genérico da solução é a rejeição das soluções extremas - simplesmente
comprar no mercado internacional um caça “de quinta geração” ou sacrificar a
compra para investir na modernização dos aviões existentes, nos projetos de aviões
não-tripulados, no desenvolvimento, junto com outro país, do protótipo de um caça
tripulado do futuro e na formação maciça de quadros científicos e técnicos. Convém
solução híbrida, que providencie o avião de combate dentro do intervalo temporal
necessário mas que o faça de maneira a criar condições para a fabricação nacional
de caças tripulados avançados.
Tal solução híbrida poderá obedecer a um de dois figurinos. Embora esses dois
figurinos possam coexistir em tese, na prática um terá de prevalecer sobre o outro.
Ambos ultrapassam de muito os limites convencionais de compra com transferência
de tecnologia ou “off-set” e envolvem iniciativa substancial de concepção e de
fabricação no Brasil. Atingem o mesmo resultado por caminhos diferentes.
De acordo com o primeiro figurino, estabelecer-se-ia parceria com outro país ou
países para projetar e fabricar no Brasil, dentro do intervalo temporal relevante, um
sucedâneo a um caça de quinta geração à venda no mercado internacional.
Projeta-se e constrói-se o sucedâneo de maneira a superar limitações técnicas e
operacionais significativas da versão atual daquele avião (por exemplo, seu raio de
ação, suas limitações em matéria de empuxo vetorado, sua falta de baixa assinatura
radar). A solução em foco daria resposta simultânea aos problemas das limitações
técnicas e da independência tecnológica.
De acordo com o segundo figurino, seria comprado um caça de quinta geração, em
negociação que contemplasse a transferência integral de tecnologia, inclusive as
tecnologias de projeto e de fabricação do avião e os “códigos-fonte”. A compra
seria feita na escala mínima necessária para facultar a transferência integral dessas
tecnologias. Uma empresa brasileira começa a produzir, sob orientação do Estado
brasileiro, um sucedâneo àquele avião comprado, autorizado por negociação
antecedente com o país e a empresa vendedores. A solução em foco dar-se-ia por
seqüenciamento e não por simultaneidade.
A escolha entre os dois figurinos é questão de circunstância e de negociação.
Consideração que poderá ser decisiva é a necessidade de preferir a opção que
minimize a dependência tecnológica ou política em relação a qualquer fornecedor
que, por deter componentes do avião a comprar ou a modernizar, possa pretender,
por conta dessa participação, inibir ou influir sobre iniciativas de defesa
desencadeadas pelo Brasil.
5. Três diretrizes estratégicas marcarão a evolução da Força Aérea. Cada uma
dessas diretrizes representa muito mais do que uma tarefa, uma oportunidade de
transformação.
A primeira diretriz é o desenvolvimento do repertório de tecnologias e de
capacitações que permitam à Força Aérea operar em rede, não só entre seus
próprios componentes, mas, também, com o Exército e a Marinha.
A segunda diretriz é o avanço nos programas de veículos aéreos não tripulados,
primeiro de vigilância e depois de combate. Os veículos não tripulados poderão vir a
ser meios centrais, não meramente acessórios, do combate aéreo, além de facultar
patamar mais exigente de precisão no monitoramento/controle do território nacional.
A Força Aérea absorverá as implicações desse meio de vigilância e de combate para
sua orientação tática e estratégica. Formulará doutrina sobre a interação entre os
veículos tripulados e não tripulados que aproveite o novo meio para radicalizar o
poder de surpreender, sem expor as vidas dos pilotos.
A terceira diretriz é a integração das atividades espaciais nas operações da Força
Aérea. O monitoramento espacial será parte integral e condição indispensável do
cumprimento das tarefas estratégicas que orientarão a Força Aérea: vigilância
múltipla e cumulativa, superioridade aérea local e fogo focado no contexto de
operações conjuntas. O desenvolvimento da tecnologia de veículos lançadores
servirá como instrumento amplo, não só para apoiar os programas espaciais, mas
também para desenvolver tecnologia nacional de projeto e de fabricação de mísseis.