A Marinha do Brasil: a hierarquia dos objetivos estratégicos e táticos.
1. Na maneira de conceber a relação entre as tarefas estratégicas de negação do uso
do mar, de controle de áreas marítimas e de projeção de poder, a Marinha do Brasil
se pautará por um desenvolvimento desigual e conjunto. Se aceitasse dar peso igual
a todos os três objetivos, seria grande o risco de ser medíocre em todos eles.
Embora todos mereçam ser cultivados, o serão em determinadas ordem e seqüência.
A prioridade é assegurar os meios para negar o uso do mar a qualquer concentração
de forças inimigas que se aproxime do Brasil por via marítima. A negação do uso do
mar ao inimigo é a que organiza, antes de atendidos quaisquer outros objetivos
estratégicos, a estratégia de defesa marítima do Brasil. Essa prioridade tem
implicações para a reconfiguração das forças navais.
Ao garantir seu poder para negar o uso do mar ao inimigo, precisa o Brasil manter
a capacidade focada de projeção de poder e criar condições para controlar, no
grau necessário à defesa e dentro dos limites do direito internacional, as áreas
marítimas e águas interiores de importância político-estratégica, econômica e militar,
e também as suas linhas de comunicação marítimas.
A despeito desta consideração, a projeção de poder se subordina, hierarquicamente,
à negação do uso do mar.
A negação do uso do mar, o controle de áreas marítimas e a projeção de poder
devem ter por foco, sem hierarquização de objetivos e de acordo com as
circunstâncias:
(a) defesa pró-ativa das plataformas petrolíferas;
(b) defesa pró-ativa das instalações navais e portuárias, dos arquipélagos e das
ilhas oceânicas nas águas jurisdicionais brasileiras;
(c) prontidão para responder a qualquer ameaça, por Estado ou por forças
não-convencionais ou criminosas, às vias marítimas de comércio;
(d) capacidade de participar de operações internacionais de paz, fora do território
e das águas jurisdicionais brasileiras, sob a égide das Nações Unidas ou de
organismos multilaterais da região;
A construção de meios para exercer o controle de áreas marítimas terá como focos
as áreas estratégicas de acesso marítimo ao Brasil. Duas áreas do litoral continuarão
a merecer atenção especial, do ponto de vista da necessidade de controlar o
acesso marítimo ao Brasil: a faixa que vai de Santos a Vitória e a área em torno da
foz do rio Amazonas.
2. A doutrina do desenvolvimento desigual e conjunto tem implicações para a
reconfiguração das forças navais. A implicação mais importante é que a Marinha se
reconstruirá, por etapas, como uma arma balanceada entre o componente
submarino, o componente de superfície e o componente aeroespacial.
3. Para assegurar o objetivo de negação do uso do mar, o Brasil contará com força
naval submarina de envergadura, composta de submarinos convencionais e de
submarinos de propulsão nuclear. O Brasil manterá e desenvolverá sua capacidade
de projetar e de fabricar tanto submarinos de propulsão convencional como de
propulsão nuclear. Acelerará os investimentos e as parcerias necessários para
executar o projeto do submarino de propulsão nuclear. Armará os submarinos,
convencionais e nucleares, com mísseis e desenvolverá capacitações para projetá-
los e fabricá-los. Cuidará de ganhar autonomia nas tecnologias cibernéticas que
guiem os submarinos e seus sistemas de armas e que lhes possibilitem atuar em rede
com as outras forças navais, terrestres e aéreas.
4. Para assegurar sua capacidade de projeção de poder, a Marinha possuirá, ainda,
meios de Fuzileiros Navais, em permanente condição de pronto emprego. A
existência de tais meios é também essencial para a defesa das instalações navais
e portuárias, dos arquipélagos e ilhas oceânicas nas águas jurisdicionais brasileiras,
para atuar em operações internacionais de paz, em operações humanitárias,
em qualquer lugar do mundo.
Nas vias fluviais, serão fundamentais para assegurar o controle das margens durante
as operações ribeirinhas. O Corpo de Fuzileiros Navais consolidar-se-á como a força
de caráter expedicionário por excelência.
5. A força naval de superfície contará tanto com navios de grande porte, capazes de
operar e de permanecer por longo tempo em alto mar, como de navios de porte
menor, dedicados a patrulhar o litoral e os principais rios navegáveis brasileiros.
Requisito para a manutenção de tal esquadra será a capacidade da Força Aérea
de trabalhar em conjunto com a Aviação Naval para garantir superioridade aérea
local em caso de conflito armado.
Entre os navios de alto mar, a Marinha dedicará especial atenção ao projeto e à
fabricação de navios de propósitos múltiplos que possam, também, servir como
navios-aeródromos. Serão preferidos aos navios-aeródromos convencionais e de
dedicação exclusiva.
A Marinha contará, também, com embarcações de combate, de transporte e de
patrulha, oceânicas, litorâneas e fluviais. Serão concebidas e fabricadas de acordo
com a mesma preocupação de versatilidade funcional que orientará a construção
das belonaves de alto mar.
A Marinha adensará sua presença nas vias navegáveis das duas grandes bacias
fluviais, a do Amazonas e a do Paraguai-Paraná, empregando tanto navios-patrulha
como navios-transporte, ambos guarnecidos por helicópteros, adaptados ao regime
das águas.
A presença da Marinha nas bacias fluviais será facilitada pela dedicação do País à
inauguração de um paradigma multimodal de transporte. Esse paradigma contempla-
rá a construção das hidrovias do Paraná-Tietê, do Madeira, do Tocantins-Araguaia e
do Tapajós-Teles Pires. As barragens serão, quando possível, providas de eclusas,
de modo a assegurar franca navegabilidade às hidrovias.
6. O monitoramento da superfície do mar a partir do espaço deverá integrar o
repertório de práticas e capacitações operacionais da Marinha.
A partir dele as forças navais, submarinas e de superfície terão fortalecidas suas
capacidades de atuar em rede com as forças terrestre e aérea.
7. A constituição de uma força e de uma estratégia navais que integrem os
componentes submarino, de superfície e aéreo, permitirá realçar a flexibilidade com
que se resguarda o objetivo prioritário da estratégia de segurança marítima:
a dissuasão com a negação do uso do mar ao inimigo que se aproxime, por meio do
mar, do Brasil.
Em amplo espectro de circunstâncias de combate, sobretudo quando a força inimiga
for muito mais poderosa, a força de superfície será concebida e operada como
reserva tática ou estratégica. Preferencialmente e sempre que a situação tática
permitir, a força de superfície será engajada no conflito depois do emprego inicial
da força submarina, que atuará de maneira coordenada com os veículos espaciais
(para efeito de monitoramento) e com meios aéreos (para efeito de fogo focado).
Esse desdobramento do combate em etapas sucessivas, sob a responsabilidade de
contingentes distintos, permitirá, na guerra naval, a agilização da alternância entre
a concentração e a desconcentração de forças e o aprofundamento da flexibilidade
a serviço da surpresa.
8. Um dos elos entre a etapa preliminar do embate, sob a responsabilidade da força
submarina e de suas contrapartes espacial e aérea, e a etapa subseqüente,
conduzida com o pleno engajamento da força naval de superfície, será a Aviação
Naval, embarcada em navios.
A Marinha trabalhará com a indústria nacional de material de defesa para desenvol-
ver um avião versátil, de defesa e ataque, que maximize o potencial aéreo defensivo
e ofensivo da Força Naval.
9. A Marinha iniciará os estudos e preparativos para estabelecer, em lugar próprio,
o mais próximo possível da foz do rio Amazonas, uma base naval de uso múltiplo,
comparável, na abrangência e na densidade de seus meios, à Base Naval do
Rio de Janeiro.
10. A Marinha acelerará o trabalho de instalação de suas bases de submarinos,
convencionais e de propulsão nuclear.